sábado, 16 de abril de 2011

E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará (?)

Se permaneceis na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a verdade e a verdade vos libertará ( jo 8.31,32)

Se queisermos compreender o sentido da liberdade e da libertação de Jesus, precisamos colocá-lo dentro do contexto do seu povo de Israel. A frase: ¨conhecereis a verdade e a verdade vos libertarᨠpoderia ter significados muito diversos. Houve tempos em que, inspirados pela cultura e pela filosofia da Antiguidade, os leitores imaginavam Jesus como um filósofo preocupado pelo problema da vida interior, alheio às agitações do mundo exterior, para quem o problema da liberdade era, assim como para o filósofo-escravo Epíctes, apenas um problema de liberdade interior: era livre o escravo que conseguia manter a sua autonomia no fundo mais oculto da consciência. Como se Jesus se preocupasse com o problema da vida interior e da consciência dos seus discípulos. Faziam dele um moralista e um educador das vidas interiores. Ora, Jesus não era filósofo e não entendia a liberdade como os filósofos do mundo romano. Era judeu e entendia a liberdade como os judeus.

As pessoas livres já estavam presentes. Jesus já as tinha ao alcance da palavra. Esse povo formado pelos pobres de Israel era educado no espírito dos profetas. Não era necessário suscitá-las. Elas, esse resto do verdadeiro Israel, seriam as emissárias, as missionárias da liberdade no mundo inteiro. O que era necessário então? Nada mais nada menos do que proteger e garantir a liberdade desses pobres de Israel das ameaças, da sedução e da falsa educação dos líderes religiosos que, como maus pastores, enganavam o povo de Israel. As pessoas livres estavam aí, porém, seduzidas, mantidas numa falsa escravidão por uma falsa interpretação dos fariseus, dos sacerdotes, dos escribas.

Nesse contexto, entendemos o porquê desse combate de Jesus contra os fariseus e os escribas. Jesus não precisava formar o povo livre. Já estava formado. A única coisa que ainda faltava era mostrar-lhe a vaidade, a inanidade e a falsidade do falso Israel que eles ensinavam. Eles eram os corruptores de Israel. Bastava destruir o seu falso poder, libertar a consciência dos simples de uma falsa veneração para restituir a verdadeira face, a verdadeira imagem do pova de Deus. A liberdade estava aí nessa tradição de Israel, depósito inesgotável de espírito libertário para os séculos. Falsos guias mantinham essas reservas apagadas, inutilizadas. Era preciso ressucitar o povo adormecido pelos maus conselheiros, paralisado por uma religião de preceitos e obras, de temor e de rigor que lhe tirava completamente o espírito de liberdade e a perspectiva da sua vocação universal. Jesus definiu o seu próprio combate no ponto central. Era preciso desenganar o povo de Deus, restituir-lhe o sentido da sua vocação, despertá-lo para estar a serviço de reino de Deus, devolver-lhe a sua autoestima e a consciência das energias divinas que Deus lhe entregara. O povo faria o resto.

 Se Jesus fosse filósofo romano, poderíamos achar típico o fato de que não trata dos problemas da cidade e do império, não trata das virtudes morais no nível social. Pareceria um filósofo da intimidade e da vida pessoal: pareceria o Jesus de Renan, que é também o Jesus de tantos. Jesus não era filósofo romano. Não tratou dos problemas sociais e políticos, dos problemas da cidade e do império, não porque essas coisas não tinham importância para o reino de Deus, mas porque essas coisas o povo as resolveria. Não era preciso definir as revoluções do futuro: o povo se encarregaria disso. Jesus não veio substituir o povo de Deus, nem fornecer-lhe um líder social, político ou militar; veio apenas para libertar esse povo do medo e da falsa submissão religiosa em que os fariseus o mantinham. Uma vez livre dessa falsa religião, o povo livre educado na tradição do Antigo Testamento faria o resto: fez o resto, ou começou a fazer o resto nos vinte séculos que nos separaram dessa mensagem. Por isso, Jesus não lutou contra o sistema econômico, social, político do seu tempo; o povo faria isso. Ele libertou o povo do adversário que o mantinha escravizado dentro de sí mesmo.

 Assim se explica também porque Jesus não denunciou tanto os sacerdotes nem anciãos: eles não tinham prestígio junto ao povo, não exerciam influência. Não era preciso derrubá-los. Já estavam em baixo. Porém, os fariseus eram os piedosos, os religiosos, a sua fama de santidade impressionava. Apresentavam títulos para reinvindicar a qualidade de autênticos intérpretes da lei de Israel. Aí estava a ameaça e o perigo, a maior corrupção desse Israel de quem se julgavam os guias e defensores mais puros. Libertar Israel do jugo dos escribas e dos fariseus: restituir-lhe a alma e o ímpeto do Espírito de Deus: a essa tarefa Jesus consagrou a maior parte dos seus trabalhos.

 Como lutar contra a falsa religião dos escribas e dos fariseus?

Primeiro mostrar-se livre dela, fazer gestos solenes e claros de rejeição e de condenação dessa religião. Daí o elemento de provocação que há na atitude de jesus em face da lei interpretada pelos fariseus. Em lugar de buscar a conciliação, Jesus quer a ruptura. É aqui que ele próprio aplica essa exigência feita aos discípulos: ¨Vim para opor o homem ao pai, a filha à mãe, a nora à sogra: e os inimigos de uma pessoa são os da sua própria casa¨ (Mt 10.35,36).
  Jesus provocou a ruptura na questão das obras de piedade e do ar de santidade. Ele não terá ¨ar de santidade¨, não terá ¨cara de santo¨.De fato, os escribas e os fariseus reagem logo. Eles dizem: ¨Eis um comilão e beberrão, um amigo dos cobradores de impostos e dos pecadores!¨ ( Mt 11.19). Um dia, ¨estando os discípulos de João e os fariseus a jejuar, foram dizer-lhe:' Por que, enquanto os discípulos de João e os discípulos dos fariseus jejuam, os teus não jejuam?'¨ (Mc 2.18). Jesus, então, respondeulhes:¨Acaso convém aos convidados para um casamento jejuar enquanto o esposo está com eles?¨ (Mc 2.19).

  Em seguida, Jesus liberta-se e liberta os seus das instituições religiosas em que os escribas mantêm o povo prisioneiro. Num dia de sábado, ao passar Jesus pelas messes, os seus discípulos, enquanto andavam, começaram a colher espigas. Disseram-lhe, então, os fariseus: ¨Vê. Por que fazem no sábado aquilo que não é lícito?¨ Ele lhes respondeu: ¨Nunca lestes o que fez Davi, quando estava necessitado e teve fome, ele  e os companheiros? Como entrou na casa de Deus, ao tempo do sumo sarcedote Abiatar, e comeu os pães da oferenda, os quais somente aos sacerdotes era lícito comer, e até os deu aos companheiros?¨
  Quando Jesus entrou de novo na sinagoga, estava ali um homem que tinha uma das mãos ressecada. Ficaram eles vigiando, para ver se o curaria no dia de sábado, a fim de acusá-lo. Disse ele ao homem que tinha a mão ressecada:¨Levanta-te e vem para o meio!¨ E então lhes perguntou: ¨É lícitonos dias de sábado fazer bem ou mal, salvar uma vida ou tirá-la?¨ Eles, porém, ficaram calados. Percorrendo com um olhar encolarizado os circunstantes e profundamente entristecido pela dureza de seus corações, disse ao homem: ¨Estende a mão. Ele estendeu e sua mão ficou boa. Então, os fariseus saíram e logo deliberaram os herodianos sobre o meio de tirar-lhe a vida¨ (Mc 3.1-6). Está claro demais que Jesus podia ter evitado esse conflito. Podia ter curado esse aleijado no dia anterior e no dia seguinte. Ele quis o conflito para libertar os seus do temor à lei e aos seus intérpretes.

 Jesus refere a sua conduta a Deus diretamente, não aos preceitos estabelecidos por tradições humanas. Cria assim entre os discípulos uma relativização radical de todas as instituições humanas, atitude que devia mais tarde provocar uma crítica permanente da sociedade.


Texto extraído do livro: Jesus de nazaré de José Comblin (in memória)

O texto em sí é mais extenso. Eu tomei a liberdade de lhe dar esse título e fazer pequenas adaptações do original.

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