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O inferno são os outros

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O filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), em uma memorável obra para teatro, Entre quatro paredes , conta a saga de três personagens que se encontram no inferno. Um deles, Garcin , é um homem de letras que está no inferno porque é covarde; fugiu desertou. O outro personagem,   Inês , é funcionária dos correios e está no inferno porque matou duas pessoas. O terceiro é Stelle , infanticida. Casou-se com um homem muito mais velho, por interesse, e acabou tendo um caso com outro. Do amante teve um filho que tratou de matar assim que nasceu. Os três personagens são absolutamente diferentes, vêm de vidas diferentes, de sonhos não vividos e de projeções. Todos gostariam de voltar e estar pelo menos uma vez mais na terra. Todos gostariam de apenas uma oportunidade para fazer algo que não fizeram. Não voltaram. Porque o tempo não admite retorno. Cada momento é único e por isso é preciso viver dignamente cada instante da vida. O embate começa entre os personagens de Sartre. Garc...

Liberdade, angústia e responsabilidade

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Segue abaixo, um trecho da entrevista feita  ao professor de filosofia Franklin Leopoldo e Silva (professor na USP). Esta entrevista concedida a revista Filosofia ciência e vida, Ano 2007 - editora Escala - foi mediada pela jornalista Patrícia Pereira. Tomei a liberdade de fazer observações e incrementações como complementos auxiliares ao leitor. Boa leitura. ¨A liberdade não é alguma coisa que está aí para ser usufruída, como um bem, como uma coisa feliz e alegre. Liberdade é uma coisa pesada que envolve essa responsabilidade¨ F.L e Silva Filosofia - Para o existencialismo, o homem define cada momento um pouquinho de sua própria existência e tem a liberdade de mudar a própria vida. Mas, ao contrário do que se pode pensar, essa liberdade traz angústia. Qual a relação entre liberdade e angústia? Leopoldo e Silva - Em primeiro lugar, a liberdade, por ela ser total, o indivíduo constroi sua própria existência, ela implica também uma enorme carga de resp...

Existencialismo

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O Existencialismo foi a corrente filosófica mais influente da Pós-Modernidade e de toda história da filosofia. Sua chegada alicerçou o subjetivismo de Kant e iniciou o processo de descentralização a partir da obra de Kierkegaard, que não tinha importância sistemática ou estética, deferindo dos românticos e dos hegelianos. O Existencialismo invadiu as correntes mais diversas da ciência e dominou, por quase cem anos - datando do nascimento de Kierkegaard - a maneira de se pensar e fazer filosofia, sobrepondo-se aos demais sistemas filosóficos do período. Por Existencialismo compreende-se a abordagem filosófica que entende o humano pela existência, não pela essência. Importa-se em ponderar através das ações e dicisões, onde a produção é de momento, como percebia o próprio Kierkegaard. A vasta influência existencialista só foi aprendida no Século XX e entre Kierkegaard e a valorização existencialista surgiu o Niilismo por meio de Nieztche. Por sua vez entende-se o Niilismo como a rej...

Uma carta para um mendigo

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Os olhos daqueles que sofrem, para sempre serão diferentes de todos os outros. Eu vi os olhos... Olhos de um sofredor desgraçado. O negro traz na cor da pele o stigma de ser excluído: “É ladrão” A cor da pele o denuncia, nasceu pra ser mendigo. Sua vida não parece humana. Seu olhar sim. Eu podia ver sua alma em seus olhos. Que alma bonita! Será que só eu vejo isso? Por que tiraram a tua dignidade? Porque te lançaram na sarjeta negro? Teus parentes, onde estão? Tua mãe não lamenta tua sorte? Tu não eras o orgulho do teu pai? O Senhor Deus dos desgraçados não passou o olhar sobre ti? Com o quê te comparam amigo meu? Com um cão sarnento... Tua presença incomoda. Tu me incomodaste Teu olhar me incomodou. Teu olhar me disse: “Estás me vendo! Não vais fazer nada?” A partir daí tornei-me cúmplice do teu sofrimento. ...

Doses de angústias

Ainda não exorcizei meus demônios... Ainda não passei pela ¨Era da crise máxima¨. Tive doses (conta-gotas) de angústias; mas não fui abraçado por ela realmente... Sei que ela está a caminho Tento preparar-me para seu encontro Nunca estarei preparado... Tento advinhar quando será  seu dia... Quando será meu dia. Nunca saberei... Sei que não posso ficar só, se assim for, a legião domina e não há porcos por perto: Pra onde iria mandá-los?

O mito do Tiradentes

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No dia 21 de abril comemora-se o dia em que morreu um heroi nacional: Joaquim José da Silva Xavier (1746-1792), mais conhecido como Tiradentes. Muitos sequer lembram esse fato. Com o decorrer dos anos o homem se revestiu do mito. No retrato acima, ¨O Cristo Cívico¨ feito pelo pintor Décio Villares, percebe-se como a figura de Jesus Cristo serviu de modelo para o mártir mineiro. Esse retrato foi feito por encomenda dos primeiros líderes republicanos. Seu desenho serviu de inspiração para outros retratos. Veremos  um pouco da história e do símbolo por trás da história. Um símbolo brasileiro Não se sabe como eram as verdadeiras feições de Joaquim José da Silva Xavier. Todos os retratos são fictícios embora nenhum tenha seguido duas informações vindas de fonte segura. Durante o julgamento dos inconfidentes, Alvarenga Peixoto descrevera Tiradentes como ¨feio e espantado¨. O depoimento de frei Penaforte indicava também que, ao ser conduzido ao patíbulo, o réu estava ¨com abarba e...

O mandamento esquecido

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    A última ceia. Toda vez que leio essa narrativa de João fico perplexo diante de seu tom moderno. Nesse evangelho, como em nenhum outro, o autor fornece um retrato realístico, em câmara lenta. João cita longos trechos do diálogo e observa as influências emocionais recíprocas entre Jesus e seus discípulos. Temos em João 13-17, um lembrete íntimo da noite mais angustiante de Jesus na terra.   Havia muitas surpresas reservadas para os discípulos aquela noite, quando passaram pelo ritual da Páscoa, cheia de simbolismos. Quando Jesus leu em voz alta a história do Êxodo, a mente dos discípulos substituiu compreensivelmente o "Egito" por "Roma". Que plano melhor do que este de Deus duplicar aquele tour de force naquele momento, com todos os peregrinos congregados em Jerusalém? O pronunciamento arrebatador de Jesus excitou seus sonhos mais loucos: "Assim como meu Pai me confiou um reino, eu o confio a vós", ele disse magistralmente, e "Eu venci o mundo...