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Soneto da hora final

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Será assim, amiga: um certo dia Estando nós a contemplar o poente Sentiremos no rosto, de repente O beijo leve de uma aragem fria. Tu me olharás silenciosamente E eu te olharei também, com nostalgia E partiremos, tontos de poesia Para a porta de treva aberta em frente. Ao transpor as fronteiras do Segredo Eu, calmo, te direi: - Não tenhas medo E tu, tranquila, me dirás: - Sê forte. E como dois antigos namorados Noturnamente tristes e enlaçados Nós entraremos nos jardins da morte. Vinicius de Moraes

O toque da morte

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Quando ela me tocar, não me trará prazer. Nem sei que sensação me causará! Não sentirei o calor do seu toque, senão o gelo de sue lençol. Ela nunca me tocou; quando me tocar será só por uma vez. Por uma única vez. Não permitirei mais que isso! A natureza não permitirá. Antes de me tocar, pode me contemplar. Me contempla no quarto Me deixa apavorado por tua presença. Sua doente! Sua louca! Olho para a porta olho para ti Confundo entrada com saída  Jamais saberei se estou entrando ou se estou saindo ao cruzar aquela porta. Que importa? Já me deixastes fascinado além de curioso Abre, abre logo essa porta Abre, abre, abre que eu quero passar! Não me venhas com dó de última hora. Tua misericórdia? Não quero... Vem toma a minha mão Deixa então que eu te toque e vamos sair daqui. Morte desgraçada! Morte vagabunda! Morre tu de dor ou de prazer, só me deixa em paz! Não me toque! Não me toque! Desculpe, eu estou de cabeça quente... Falei demais....

O ano em que sonhamos perigosamente

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Já faz algum tempo que li o livro O ANO EM QUE SONHAMOS PERIGOSAMENTE do filósofo esloveno Slavoj Ziziek. Me surpreendi ao encontrar semelhança entre seu texto e os acontecimentos repercutidos em todo território nacional. Somente para citar alguns trechos do capítulo "Inverno, primavera, verão e outono árabes": "Quando um regime autoritário se aproxima da crise final, sua dissolução, via de regra, segue dois passos. Antes do colapso real, acontece uma misteriosa ruptura: de repente, as pessoas percebem que o jogo acabou e simplesmente deixam de sentir medo. Além de o regime perder sua legitimidade, o próprio exercício do poder é visto como uma impotente reação de pânico." (pág.71)  E ainda:  "O que complica mais as circunstâncias é a situação econômica, que piora rapidamente - mais cedo ou mais tarde, isso levará às ruas milhões de pobres, amplamente ausentes nos eventos da primavera, que foram dominados pela jovem classe média instruída. A nov...

A beleza salvará o mundo

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Que venhas lá do céu ou do inferno, que importa, Ó beleza! Monstro ingênuo gigantesco e horrendo! Se teu olhar, teu riso, teus pés me abrem a porta De um infinito que amo e que jamais desvendo? De Satã ou de Deus, que importa? Anjo ou Sereia, Que importa, se és tu quem fazes - fada de olhos suaves, Ó rainha de luz, perfume e ritmo cheia! - Mais humano o universo e as horas menos graves? Temos aqui, o belo, alçado ao topo dos ideais humanos glorificado no Hino à beleza de Baudelaire. Tzvetan Todorov, historiador búlgaro, cita um texto encontrado numa revista chamada Canopée : "A beleza salvará o mundo. A frase de Dostoievski nunca foi tão atual. Pois é justamente quando tantas coisas vão mal em torno de nós que é necessário falar da beleza do planeta e do humano que o habita." Todorov, escreveu recentemente um livro: A Beleza Salvará o Mundo; seu texto nos será útil para se ter um entendimento do que significa “a beleza salvará o mund...

Amor, morte e Bauman

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"Põe-me como um selo sobre teu coração, como selo sobre o teu braço,  porque o amor é forte como a morte ..." Cânticos dos cânticos 8.6 Zygmunt Bauman é um sociólogo polonês. Seus escritos formam uma vasta contribuição para o pensamento moderno, ou, pós-moderno, como o sociólogo descreve a época atual. Penso, que Bauman contribui também para o entendimento das relações afetivas. Qual um psicanalista, assim é seu livro AMOR LÍQUIDO. Dada a importância do trabalho, transcrevi e parafraseei parte de um texto: Citando Ivan Klima, Bauman diz que "poucas coisas parecem tanto com a morte quanto o amor realizado". (...) Cada um deles nasce, ou renasce, no próprio momento em que surge, sempre a partir do nada, da escuridão do não ser sem passado nem futuro; começa sempre do começo, desnudando o caráter supérfluo das tramas passadas e a futilidade dos enredos futuros. Tal como o rio de Heráclito, amor ou/e morte não podem ser penetrados duas vezes. Amor e m...

Antes do suicídio, já estou morto

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Tem gente que vai me perdendo, me deixando escapar. Aí eu vou percebendo que nunca fiz tanta diferença e que a importância que eu pensava ter, na verdade, nunca existiu! Eu vou percebendo que sua mão não mais me sustentava... Não tinha mais sentido tuas palavras; não nos meus ouvidos. Fui percebendo que não tinha mais calor e que teus olhos não mais brilhavam quando me viam... Eu te contemplava com ternura enquanto  dormias. Ficava horas ao teu lado. Acordado, pensava: com o que estás a sonhar?  Realmente eu nunca soube responder: Era eu que te perdia ou a perda seria tua? Quem matou quem dentro de quem? Não sei! Só sei que antes de morrer, eu já estava morto!! Erivan

Nada, ou um pouco menos?

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Desde o começo do mês iniciei a leitura do livro Menos que nada (Ed. Boitempo) do filósofo esloveno Slavoj Zizek . Hoje, me encontrei rindo sozinho sobre uma anedota que  Zizek relata logo na introdução do livro: "Lembremo-nos da velha piada judaica, tão cara a Derrida, sobre um grupo de judeus que admite publicamente, em uma sinagoga, sua nulidade aos olhos de Deus. Primeiro, um rabino se levanta e diz: 'Ó Deus, sei que sou inútil, não sou nada!'. Quando o rabino termina, um rico comerciante se levanta e, batendo no peito, diz: 'Ó Deus, também sou inútil, obcecado pela riqueza material, não sou nada!'. Depois desse espetáculo, um pobre judeu do povo também também se levanta e proclama: 'Ó Deus, não sou nada...'. O rico comerciante cutuca o rabino e sussurra no ouvido dele, com desdém: 'Que insolência! Quem é esse sujeito que ousa afirmar que também não é nada?!'. De fato, é preciso ser alguma coisa para alcançar o puro nada..." Len...